News Farma (NF) | Mais uma vez, a Sociedade Europeia de Cardiologia organizou o seu Congresso que contará com um programa extenso e pautado pela atualidade. Tendo em conta as suas áreas de interesse, que temas ou sessões gostaria de destacar?
Dr. Pedro Marques da Silva (PMS) | Em primeiro lugar, o tema da insuficiência cardíaca e a discussão que vai, mais uma vez, motivar sobre qual o papel e em que momento se deve recorrer a novos fármacos, especialmente quando o doente se encontra sob tratamento no esquema habitual. E também importante, perceber quais os doentes a selecionar para serem tratados com novas opções ou quais os doentes que irão beneficiar mais com a mudança, assim como a fase em que temos de o fazer.
O segundo tema é a terapêutica anti-dislipidémica. Vai haver uma mesa-redonda das Sociedades Europeias de Aterosclerose e de Cardiologia, em que se esperam as novas recomendações europeias para o tratamento das dislipidemias. Tenho a certeza que será um ponto marcante, que irá motivar forte discussão. Ainda dentro deste tema, destaco a discussão sobre o papel dos inibidores da PCSK9, mais concretamente, em doentes com hipercolesterolemia familiar homozigótica que necessitam de LDL-aférese.
Por outro lado, o tema da anticoagulação oral: os novos anticoagulantes, anticoagulantes orais diretos e a fibrilhação auricular. No caso concreto, vai mais estar ligado, nesta fase, com um ensaio clínico do edoxabano em relação aos doentes submetidos à ablação da fibrilhação auricular e vamos poder ver os resultados. Também os novos estudos sobre a efetividade na vida real.
Finalmente, nem tendo, necessariamente, a ver com motivos religiosos ou filosóficos, que podem existir – como é no meu caso pessoal –, mas independentemente de tudo, vamos ter a visita de Sua Santidade Papa Francisco, no último dia do Congresso, e que é, de facto um ponto importante e marcante.
NF | Na abordagem ao risco cardiovascular, é mandatória a avaliação das dislipidemias. O programa do ESC 2016 contempla esta condição em algumas sessões, sendo que uma das mesmas foi mencionada por si anteriormente: The 2016 ESC Guidelines and EAS Guidelines on Dyslipidemia – Highlights. De que forma se justifica rever o standard of care do tratamento da dislipidemia?
PMS | Primeiro ponto, todos nós, médicos, doentes ou sistema de Saúde, podemos e devemos fazer muito mais em relação às dislipidemias com aquilo que já temos. Em segundo lugar, qualquer revisão de estratégia terapêutica, dos valores-alvo, tem dois riscos: o primeiro, é aumentarem o número de doentes que não estão controlados e, portanto, isto seria sempre uma situação de alguma frustração clínica; e segundo, sabermos qual é a sustentação biológica para o fazer. Naturalmente que um ensaio clínico é um ensaio clínico, mas este não pode ditar a lei. É muito diferente passar de um ensaio clinico de cinco anos para uma terapêutica que se inicia, por exemplo, em indivíduos de risco elevado aos 45 anos, para toda a vida. Há que ter cuidado com a inferência terapêutica que é feita.
Por outro lado, neste Congresso também serão mostrados dados que com certeza irão confirmar que as pessoas que nascem e vivem desde sempre com valores de lipoproteínas aterogénicas mais baixas, têm maior esperança de vida e têm menos eventos cardiovasculares. E também já há provas de que existe memória biológica nas células vasculares, que estão durante uma série de anos submetidos a um conjunto de fatores de risco. Não podemos estar à espera que a simples inversão do valor faça novamente recolocar o problema dessa estrutura em níveis como se nunca tivesse havido esse problema.
Portanto, quero sublinhar que temos de ter alguma atenção. No que diz respeito às dislipidemias, há um balanço entre várias coisas: a certeza do papel das lipoproteínas aterogénicas, as incertezas no que se passa com a HDL e as novas certezas no que toca às lipoproteínas ricas em triglicéridos. Por isso, quero muito ver como é que estas componentes das dislipidemias entram nas novas guidelines.
NF | Que perguntas gostaria de ver respondidas neste ESC 2016?
PMS | Primeiro, é preciso entender que é um Congresso de Cardiologia. Logo, deve responder a questões da Cardiologia. E não são só aquelas que estão mais na perspetiva da prevenção cardiovascular e da atuação sobre fatores de risco. Algo muito importante também é o desafio da idade. Nós vamos vivendo cada vez mais e, portanto, há que responder a várias questões de Cardiologia referentes ao idoso e, em particular, ao idoso frágil.
Mais do que respostas, gostaria que saíssemos do ESC 2016 estimulados para discutirmos, refletirmos e transpormos para uma mais efetiva prática clínica no controlo da doença cardiovascular porque acho que é fundamental para a prevenção e todos nós ganhamos muito se a mesma for efetiva.
Ainda assim, gostaria apenas de assinalar que a hipertensão arterial sistémica parece um pouco esquecida, o que se calhar resulta de um momento próprio em que estamos todos ainda com dificuldades em transpor aquilo que sabemos para a prática clínica, com intervenções terapêuticas fundamentadas. Será apenas uma fase, mas no futuro, e por ser um tema tão importante, a hipertensão não pode deixar de ser focada.





























































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